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Não esquecerei nunca da dureza do rosto daquele homem ao me dizer que minha mãe morreria em questão de horas, ou talvez um ou dois dias. Neurologista, ele era ali, naquele corredor frio de hospital, um cientista a dar o veredito com poucas palavras, economizando adjetivos, mas pródigo em sentenças curtas, com pontos finais de dar calafrios. Nenhuma reticência que desse margem a dúvidas. Dona Joana estava com um câncer impiedoso em algum lugar daquele cérebro que tanto me ajudara e tanto me machucara.

Havia sido internada com uma crise de úlcera no esôfago, e agora isso: o mais cruel dos cânceres estava revelado em sua cabeça, desprovendo nossa família de esperança. Sem avisos que tivéssemos podido ouvir, o câncer tomara-lhe todas as possibilidades de luta. Não haveria tratamento possível, e, ainda que ela voltasse do coma, só sofrimento estaria lhe esperando.

Minha mãe era espírita, uma médium de estirpe. Era dramática, também. Dizia há muito que tinha um câncer, mas que seus guias espirituais lhe tiravam as dores. Ouvíamos, mas não lhes dávamos crédito. Tirando o stress, que vinha sendo tratado, e a úlcera sob controle, tudo estava bem, imaginávamos. Agora, minha mãe, que raramente tinha dores de cabeça – e se as tivesse, bastava uma aspirina para dar conta dela -, estava morrendo com um câncer enorme no cérebro.

Absurdo! Pensava, me indignava, ao mesmo tempo em que me conformava devagar entre as orações que fazia em seu leito, na capela, nas ruas em volta do hospital, por onde muitas vezes vaguei sem rumo durante aqueles três dias de tormento em que rezava fervorosamente para que minha mãe morresse logo, rápido!, sem dores, em paz... Coisa cruel pedir a Deus pela morte de quem amamos...

Aprendi com minha mãe a ter  coragem. E precisei tanto de coragem naqueles dias surreais... Já se passaram 17 anos, e só agora a dor diminuiu um pouco. Feito pancada forte que o corpo recebe e não esquece - doendo sempre por um longo tempo, depois ficando aquela pontinha de dor que fere vez ou outra -, assim sinto o baque n’alma com a morte de minha mãe. Não dói sempre, mas dói.

A morte, essa inexorável verdade, é sempre espantosa. Seja por doença, acidente, incidente, má sorte, sempre nos desconcerta. Em janeiro, de um dia para o outro, literalmente, perdi duas pessoas queridas em Bastos, onde vivo há 18 anos: o comerciante Takami Shibata, que nos últimos anos atuou no ramo de rações para a avicultura na região, e a professora Fumiko Yamauchi, esposa do amigo e empresário Elio Yamauchi, tradicional representante de produtos veterinários para granjas em Bastos. Gente boa e amiga.

Mortes rápidas, como se diz popularmente, que nos pegam de surpresa, foram as partidas de Takami e Fumiko, ele vitimado por um câncer que o levou em apenas um mês de luta contra a doença. Ela, falecida dois dias depois, partiu de forma trágica num acidente de carro na região de Marília (bem próximo a Bastos), deixando a todos consternados.

Pelo menos por uns 10 anos convivi com a amável Fumiko Yamauchi, mulher forte e dedicada à educação e ao conhecimento espiritual, através da Seicho-no-iê. Tão cheia de vida, ela se foi assim, sem o aviso prévio da doença, ou seja, sem chances de despedida. E Takami, um verdadeiro relações públicas da colônia japonesa em Bastos, levou consigo sua gentileza e seu modo tão alegre de viver a vida, deixando-nos, além do belo legado, a querida esposa e amiga Nina, sua fiel companheira de todas as horas.

Tão triste e tão espantoso é saber que de repente a pessoa querida que estava aqui nunca mais estará...

Vida que vai, que se esvai, que volta, que renasce... Feito estações que se sucedem, assim é a vida da gente. Minha mãe morreu há dezessete anos, meu amigo Eduardo se foi há cinco anos, meu sobrinho Guilherme partiu há oito meses, Takami e Fumiko morreram há pouco mais de um mês. Neste tempo todo, a vida não parou. Apesar da dor, da tristeza, do vazio, a vida não para. E a gente que aguente.

Isso sempre me espanta: há que se viver, ainda que a vida tenha se extinguido para aqueles que amamos tanto. E não há escapatória, baby! A não ser que se escolha o suicídio ou a loucura, a vida tem que seguir sempre em frente, sempre em frente, sempre em frente... Como diz o jargão gasto: atrás vem gente!

E vem mesmo! Graças! Que bom! Vem gente nova, projetos novos, a vida segue no ritmo sem parar do tempo que não para.

Se alguns sonhos são desfeitos com a morte, outros projetos tomam seu lugar! ... Que a vida é inquieta e seguimos pela estrada com umas dores a mais nas juntas, no corpo, na alma, mas seguimos... E lá vamos, carregando a angústia e o prazer inerentes de nossa condição de vivente. E que a gente não se perca em querer mais que isso, porque isso, meu bem, é o que temos de verdade: Vida, alegria, prazer, angústia e dor. O resto é bobagem para se gastar tempo à toa.

No final de tudo, a Morte, a iniludível – como imortalizou Manoel Bandeira em seu poema. E Dela ninguém escapa.

Perder tempo com medo para quê? Eu quero mais é ter a coragem de viver, como Dona Joana me ensinou. Até para honrá-la, que minha mãe era uma mulher imperfeita e linda, como a vida.

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